Mundo digital aumenta batalha pela ideia de realidade, afirma Ronaldo Lemos em encontro da Justiça Eleitoral em São Paulo
Advogado e especialista em tecnologia e inovação falou para diretores-gerais e assessores de comunicação de todos os Tribunais Eleitorais do país

A Inteligência Artificial (IA) e o fenômeno da desinformação foram o tema de uma palestra proferida pelo advogado Ronaldo Lemos no primeiro dia do 87º Encontro do Colégio de Presidentes dos Tribunais Regionais Eleitorais (Coptrel), que acontece nesta semana na capital paulista. Na manhã desta quinta (20), aconteceram os encontros de todos os diretores-gerais e assessores de comunicação dos Tribunais Eleitorais do país.
Na sua apresentação, o especialista em tecnologia e inovação traçou um histórico das chamadas fake news, abordando as origens do fenômeno e mostrando como elas são diferentes atualmente em termos de quantidade e qualidade. “A fake news contemporânea usa uma tecnologia muito mais rápida, é muito mais insidiosa e comum, o que faz ela ter uma natureza distinta da natureza histórica do fenômeno da desinformação”, disse.
Ronaldo Lemos também explicou o funcionamento dos bots (abreviação de robots, robôs em inglês) e como eles interferiram em eleições, como as de 2016 nos Estados Unidos, de 2017 na França e de 2018 no Brasil. Segundo dados apresentados na palestra, 47% do tráfego da internet é gerado por robôs e, em 5 anos, a previsão é que 99% do conteúdo postado seja gerado por IA.
“Desde a primeira eleição do Macron, já havia uma presença surpreendente de robôs participando do debate eleitoral na França. De lá para cá, a situação piorou muito. Vimos na eleição do Trump, inclusive com alegações de que robôs retuitavam mensagens do próprio Trump”, ressaltou.
Segundo ele, 2025 vai ser o primeiro ano em que o tráfego de robôs na rede vai ser maior que o tráfego de humanos. “É o ano da virada. Significa que, quando vocês virem um vídeo nas redes, podem imaginar que boa parte das visualizações são de robôs e não de pessoas. Estamos vivendo um momento em que o tráfego na internet, postagens, acesso a sites, visualizações de vídeos ou posts, mais de 50% será feito por ferramentas automatizadas”, detalhou.
Lemos acrescentou que “a rede que conectava pessoas e armazenava o conhecimento humano não existe mais de acordo com essa teoria. Ou, ao menos, está sendo substituída por uma rede composta por máquinas que falam entre si e conteúdos gerados automaticamente por inteligência artificial”.
O especialista também lembrou que existem “bots do bem”, como o LA QuakeBot, que avisa sobre terremotos em Los Angeles, e um robô que identifica gastos suspeitos de deputados e senadores no Brasil.
Redes de coleta de informação
Lemos falou ainda sobre a infraestrutura das fake news, sobre como as redes de coleta de informações granularizadas e de micropropaganda custam dinheiro e sobre o uso, na criação e propagação de conteúdos falsos, de psicometria — uma especialidade da psicologia que utiliza testes e avaliações para medir características do psiquismo (em uma definição gerada por IA).
“Hoje há redes de coleta de informação granularizada. Cada um de nós tem seu perfil traçado por essas empresas, que sabem o conteúdo que você buscou, o seriado que assistiu. E aí os data brokers compram essa informação”, disse. Os data brokers são empresas que compilam e vendem dados de internautas para serem usados em publicidade direcionada e fraudes, entre outros fins.
Ele contou que a indústria da fake news no Brasil resultou na formação de fazendas de celular para a disseminação de conteúdo falso. “A gente descobriu uma fazenda de celular, fazenda de chips, que põe chipeiras para vender o serviço de difusão, para unificar mensagens para milhões de pessoas, inclusive para campanhas eleitorais.”
Ao final, o especialista destacou algumas possíveis formas de lidar com a desinformação, como a autenticação da realidade por meio da tecnologia de blockchain (a mesma usada em criptomoedas), o uso da própria IA para contestar fake news e a educação midiática.
“Fake news custa muito dinheiro. Uma das estratégias de combate à desinformação é seguir o dinheiro. A tecnologia vai mudar sempre, mas o dinheiro sempre vai deixar rastros. Tirar conteúdo do povo é igual a cortar a folha de uma árvore, amanhã cresce outra. Seguir o dinheiro é atacar a raiz da árvore porque você pega a articulação das pessoas para gerar a desinformação”.
Combate às fake news e atuação da Justiça Eleitoral
Ele elogiou a atuação dos Tribunais Eleitorais em relação à desinformação. “A gente tem que agradecer que o Brasil tenha a Justiça Eleitoral. Vários outros países olham pra gente com inveja, porque a gente tem uma instituição que é fantástica para pensar todos esses temas de forma coordenada. A Justiça Eleitoral brasileira faz um ótimo trabalho comparado com a de outros países que acompanho, pois entendeu como a internet funciona e toma medidas extremamente eficazes”, afirmou
O especialista acrescentou que a Justiça Eleitoral precisa entender e atacar as estruturas financeiras por trás das fake news. “Precisa equilibrar o combate às folhas com o combate mais estrutural, atacando a raiz do problema, que demanda mais investigação, informação e entendimento sobre como essas dinâmicas funcionam, são as recomendações que daria para a Justiça Eleitoral continuar fazendo um bom trabalho.”
Para ele, a ideia de uma realidade compartilhada, em que todos concordam que aquilo é a realidade, está cada vez mais se enfraquecendo. “Então, a fake news não é mais uma exceção, é o novo normal do mundo que vivemos hoje. Até a foto que tiramos no celular é um pouquinho fake porque é manipulada de forma que não corresponde à realidade. A gente está documentando a realidade agora sempre com um filtro que faz com que aquele documento não seja fidedigno. Quanto mais o mundo se torna digital, mais vai haver uma batalha pela ideia de realidade”, concluiu.
Currículo
Ronaldo Lemos é advogado, especialista em tecnologia e mídia, reconhecido internacionalmente. Sócio do escritório Rennó Sampaio Advogados, foi professor da Universidade de Columbia, em Nova York, e do Schwarzman College, na Universidade de Tsinghua, em Pequim. Fundador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, foi um dos autores do plano nacional de Internet das Coisas e um dos criadores do Marco Civil da Internet.
Também integrou o conselho de várias organizações, incluindo os conselhos de Supervisão Independente da Meta, de Segurança do Spotify, da Fundação Stellar e do Museu do Amanhã. É graduado e doutorado em direito pela Universidade de São Paulo, e mestre em direito pela Universidade de Harvard. É colunista semanal e membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo. Em 2015, foi eleito pelo Fórum Econômico Mundial como um dos “Jovens Líderes Globais”.
Acesse as fotos do 87º Coptrel no Flickr.